segunda-feira, 6 de agosto de 2012

NEVOEIRO...





MITOS...

Um breve intróito:

              Durante uma incompreensível Cruzada, Dom Sebastião I  ("O Desejado") jovem monarca Português (1554/1578), morre na Batalha de Alcácer Quibir sem ninguém o ter testemunhado... Este fatídico e misterioso episódio é a génese de um mito sobre sua figura e permanece até aos dias de hoje no imaginário do Povo Português… narra a lenda que regressará numa manhã de nevoeiro para fundar o Quinto Império

       É assim o Sebastianismo, uma espécie de Messianismo português.

...

A ÚLTIMA NAU

Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,
E erguendo, como um nome, alto o pendão
Do Império,
Foi-se a última nau, ao sol aziago
Erma, e entre choros de ânsia e de pressago
Mistério.

Não voltou mais. A que ilha indescoberta
Aportou? Voltará da sorte incerta
Que teve?
Deus guarda o corpo e a forma do futuro,
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro
E breve.

Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlântica se exalta
E entorna,
E em mim, num mar que não tem tempo ou espaço.
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna.

Não sei a hora, mas sei que há a hora,
Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora
Mistério.
Surges ao sol em mim, e a névoa finda:
A mesma, e trazes o pendão ainda

Do Império.

                                                    Fernando Pessoa - Mensagem 
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Quarteto 1111 - A Lenda de Dom Sebastião




sábado, 9 de junho de 2012

ADAMASTOR




O  MOSTRENGO

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:

«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»
                                             
                                                             Fernando Pessoa    ( In Mensagem)


Dulce Pontes - Canção do Mar



domingo, 13 de maio de 2012